Visitada a cidade de Guanghzou, esperavamos o autocarro que nos levaria a Yangshuo, cada um preparando-se a sua maneira para uma viagem pela noite dentro. Somos alvo de mil olhares indiscretos, enquanto comemos bolachas no chao da estacao, esperando pela hora marcada.
A viagem acabou por nao permitir um sono continuo e descansado. Ou pelo menos que a maioria assim dormisse, sendo que eu sou a minoria, como adivinharao alguns. Lembrancas de viagens a outros paises ditos de terceiro mundo haviam-me preparado para uma conducao "com emocao". Nao ha regras, senao a da buzina e a do "chega para la senao estampo-me". As estradas estao na pior das condicoes, chegando a obrigar o autocarro a fazer largos trocos a uns 10 kms/h. Nao estou a exagerar: por vezes parecia a habitual marcha lenta da chegada a um parque de estacionamento de uma praia da Caparica, em que procuro poupar a suspensao do carro. Desta vez estava numa estrada nacional chinesa, escassos dias depois da regiao de Yangshuo ter estado totalmente alagada. Mas o mal estava feito, portanto mais valia dormir.
Quando abri os olhos estava em Yangshuo. Nao poderia ter imaginado melhor despertar. As fotografias falam por elas e estao no sitio do costume (inclui mais umas recentemente, vejam o link no cimo da pagina). Yangshuo é uma vila de agricultores que descobriu ha alguns anos as maravilhas do turismo. A sensacao `a chegada foi de paz, especialmente depois da passagem por Guangzhou. Nao ha preocupacoes neste pedaco de paraiso, em que o tempo é passado descendo rios em jangadas de bambu ou explorando aldeias vizinhas de bicicleta, em que somos sempre cumprimentados com um sorridente "nihao!" (ola!). Entre os arrozais e as plantacoes de tabaco, vamos pedalando para encontrar a proxima paisagem espectacular, sempre dominada pelos pinaculos rochosos que podem ver nas fotos, que se perdem da vista entre o nevoeiro constante.
Mas qualquer descricao que eu vos possa fazer deste sitio sera redutora, pelo que me vou abster de a fazer. Prefiro falar-vos da Amy, a nossa guia.
A Amy, cujo nome verdadeiro é Zhu Lian Feng, tem 47 anos, vividos na sua totalidade em Yangshuo e arredores. Conhecemo-la em pessoa na manha da nossa chegada a Yangshuo, conduzindo uma moto electrica como tantos outros chineses. A primeira impressao foi logo positiva: a Amy nao é daqueles guias que tem tudo negociado de antemao, daqueles que apenas querem dar ao viajante a ilusao de que escolhe o que faz da sua viagem. Nao! A Amy queria saber onde pretendiamos dormir ou, pelo menos, que tipo de hostel pretendiamos. Acabou por nos indicar um onde pagamos uns 5 euros por noite. Da minha varanda acabei por tirar fotografias, algumas das quais estao incluidas nas que coloquei na net. Devem calcular, portanto, que o quarto valeu cada centimo gasto.
Mas comecamos a conhecer a Amy durante o pequeno almoco. Apesar de macarronico, o seu ingles era totalmente entendivel. O curioso é que ninguem a ensinou a falar: a Amy aprendeu o ingles que sabe durante os ultimos nove anos, numa base totalmente auto-didactica. Ocasionalmente recorre a algo que se parece com uma agenda electronica, daquelas que sao distribuidas gratuitamente por revistas pretenciosas e que acabam, quase sempre, guardadas numa gaveta até a sua primeira e ultima pilha se gastar. Para a Amy aquele objecto é essencial. É ele que lhe permite conhecer uma nova palavra, feita a traducao chines-ingles dos caracteres que escreve no teclado de borracha, descobrindo em seguida a sua fonetica quando o viajante que guia a le em voz alta.
Passada a conversa de circunstancia, que passou pelo relato do efeito das cheias na pequena vila de Yangshuo, a Amy comeca a falar de si. Segundo ela, nao ha pessoa mais sortuda na vila! Tem oportunidade de fazer amigos de todo o mundo sem de la sair. Quando lhe mostrei as fotos das nossas paragens anteriores ficou maravilhada, dado que nunca foi sequer a Cantao. Ao que ela sabe, de la so vem pessoas mas ("Bad people!"). E isso basta-lhe.
Estou a exagerar. A Amy foi uma vez a Pequim, a convite de uma amiga canadiana. Conheceu essa senhora da mesma forma que nos conheceu a nos. Falou-nos da sua visita a capital num tom de emocao, de agradecimento, de contentamento com a vida, que transparece tudo isso apesar do seu ingles nao lhe permitir por tudo em palavras. Senti que os seus dias em Pequim foram dos mais felizes que teve. Acabaria por perceber, mais tarde, que os seus dias mais infelizes foram causados pela mesma cidade. Repito: eu acabaria por perceber. A Amy nao.
Zhu Lian Feng é a mais velha de 5 irmaos. O mais novo morreu de fome, ainda muito novo. Fome essa que afectou toda a China pois o regime de Mao decidiu, por essa altura, que a actividade economica primordial deveria ser a metalurgia. Nao havendo agricultura, nao houve comida para todos, entre os quais o irmao da Amy. Mas para ela, a historia acaba na segunda frase deste paragrafo, na parte da fome.
Porem, para grande espanto meu, a Amy chegou a confessar que Mao tinha cometido alguns erros enquanto governante. Confessar é a palavra certa: isto foi dito baixinho, em ingles, entre pedidos de segredo absoluto. Mas o meu espanto logo se desfez: segundo a Amy, os erros nao foram bem do Mao, mas antes da sua mulher. O lendario secretario do partido comunista estava muito velho e a mulher comecou a dar ordens por ele. Dai vieram os problemas todos da sua governacao.
Mas Pequim voltou a dificultar a vida de Zhu Lian Feng. Mae de um filho, nao poderia ter um segundo, estando sujeita a uma multa de 600 euros se tal acontecesse. Isto ha 10 anos atras, pois no presente esse valor é de 2000 euros, uma pequena fortuna neste lado do globo. Muito pesado dirao voces, mas quando as autoridades souberam da segunda gravidez da Amy (nao me perguntem como), a historia foi outra. Nao tendo dinheiro para pagar a multa, a Amy acabou por ver a sua casa invadida pelos homens do regime, que a procuravam para a levar ao hospital e ai se abortasse a gravidez. Felizmente conseguiu esconder-se a tempo, mas o marido acabou preso. Teve o pai de ir busca-lo, depois de pedir dinheiro a toda a gente que conhecia para que pudesse pagar a multa.
Para a Amy a vida continuou. E continua. Na sua passividade oblivia, infantil ate, a Amy segue cantando enquanto se passeia connosco pelos arrozais. Pensa-se a mais sortuda da sua vila, como se calhar se pensam outros entre os 1,3 bilioes de chineses. E Tien Amen sera sempre (apenas) uma praca monumental em Pequim, que povoara o seu imaginario sonhador, quando relembra a sua visita.
1 comentário:
João devias ser escritor. Em termos de conteúdo bates aos pontos o Miguel Souza Taváres.
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