2.tenho pena de nao incluir fotografias, mas este computador esta demasiado demorado. ja é tarde e amanha é para acordar cedo. assim que puder incluo, ate porque estao mesmo porreiras
Foi debaixo de chuva que nos despedimos de Hong Kong. Aquela chuva tropical que nos faz vestir o impermeavel, embora preferissemos o tronco nu, tal é o calor. Para chegar ao ferry que nos levaria a Macau fizemos uso da nossa melhor mimica, assim como do no nosso pior ingles. A lingua de Shakespear é, por estas bandas, melhor entendida quando usada na base do monossilabo.
A bordo do ferry comeca a fusao: caracteres chineses que por baixo dizem "Cuidado com o degrau!". Preencher o formulario de entrada no territorio relevou-se tarefa ardua, pautada pelo ocasional grito de um passageiro da parte da frente do ferry, assustado pela combinacao de velocidade com mar picado (o ferry nao é nenhum cacilheiro, aquilo anda mesmo). Foi a primeira vez que me senti enjoado num barco. Mas, felizmente, a coisa correu pelo melhor.
Chegados a Macau, mais fusoes: as traducoes lusas dos misteriosos caracteres surgem em frases soltas, um pouco por todo o lado. Ate nas patacas, emitidas pelo Banco Nacinal Ultramarino. Mas a fusao fica-se pela palavra escrita, porque raramente é ouvido na rua e, quando o ouvimos, vem da boca de turistas. O ingles é ainda mais monossilabico.
Tratou a Mariana, que nos albergou em sua casa nos dias passados na ex-colonia, de falar com o taxista por telefone, de modo a que pudessemos chegar a sua casa (Obrigado por tudo Mariana!). Instalados nesse cantinho luso, fizemo-nos `a parte velha da cidade, onde tudo se torna surreal. Nao se ouve portugues, ate porque mesmo os turistas sao, na sua esmagadora maioria, chineses. No entanto, pedacos de Portugal vao surgindo. O edificio da Santa Casa. A Rua Dr. Mario Soares. A Livraria Portuguesa, anunciando coloquios com o tema "Quem foi Camoes?". A calcada portuguesa. Os pasteis de nata, vendidos sob slogans em caracteres chineses. Foi estranho. Durante estes dias em Macau senti que estaria em casa...nao fosse o facto de nao entender ninguem e de ninguem me entender. Macau usa Portugal como um homem usa uma gravata: aquilo nao serve para nada, esta la so para enfeitar. As marcas lusas parecem lutar enquanto se afogam numa cultura totalmente dispar. Fazem lembrar o ocasional aquele "Eu estive aqui!", que se ve tantas vezes escrito num parque, num monumento, onde quer que seja, por quem procura eternizar uma passagem breve e fugaz. Esquecem-se os autores de tal frase que basta muito pouco para apagar a marca que tentaram deixar. A Portugal, parece que bastou entregar Macau a quem de direito, para que fosse sendo apagado deste local que lhe é tao estranho.
Macau tem uma escala que eu nao imaginava. Recebe hoje mais visitantes por ano do que os EUA no seu todo. Na sua maioria sao chineses, sedentos de jogo ou de sexo profissional. Ultrapassou ja Las Vegas no que toca ao negocio da sorte. Ou sera o do azar? O hotel Lisboa teve de mandar substituir as suas janelas, de modo a que nao pudessem ser abertas, tal era o desespero dos (demais) azarados que procuravam melhor sorte num salto.
O jogo fascina por fora. Nas ruas tudo brilha, tudo pisca. Sempre em formas novas, sempre com um luxo piroso. Fomos ao Venetian, um casino que nao pisca, mas que é simplesmente monumental por fora. Por dentro nao o deixa de ser, mas o megalomano passa a ridiculo. Passo a explicar: este casino procura recriar, no seu interior, a cidade de Veneza. Bem sei que ha um em Las Vegas, mas este é cinco vezes maior. Recebe 50 000 visitantes-jogadores por dia, fora aqueles que vao apenas ver a fortuna ou a falencia alheia. Eu ja esperava as salas de jogo a perder de vista (mesmo a perder de vista!). Mas centros comerciais que se desenham entre canais, por onde chineses conduzem gondolas, enquanto cantam "Volare! Oh Oh!" para delicia do casal que transportam pelo meio das lojas...isso eu nao esperava! Depois temos Veneza de dia, temos Veneza de noite, temos tudo! Parecia uma Disney para gente grande, onde elas se perdem por joalharia da "Hello Kitty" e eles pelas pernas da menina que os convida para ir para o quarto.
Em Macau houve tambem lugar para o almoco mais aventureiro ate agora, ainda que com a recomendacao da Mariana, mas que deixou alguns com fome. Confesso que nao fui um deles, ando mesmo com um apetite alarve. Mas em Macau ha sempre um noodle por perto, de conteudo bem identificavel pelos olhos tugas.
Mas em termos de gastronomia, nada bateu o jantar do restaurante do Mr. Tsong, um macaense que arranhou algum portugues, pelo menos mais do que o ingles. O Mr. Tsong gosta muito de Cascais! Sempre de copo na mao, ensinou-nos muito do pouco chines que sabemos, ate que desatou a cantar em chines uma musica tipica de Macau. No fim houve a foto da praxe, que nao poderei incluir pois esta na maquina da Joana, que nao tem culpa nenhuma das minhas insonias (este calor nao me deixa dormir as minhas 12 horas de seguida) e que por isso nao vou acordar. Em todo o caso, jantamos grande mariscada, barata, numa praca "aportuguesada", com vista para o mar, numa das ilhas de Macau (a minha memoria atingiu o limite de nomes estranhos que consegue armazenar, pelos menos por hoje).
Macau é um sitio curioso para um portugues. A musica do Sting que diz "I'm an alien, I'm a legal alien!" ganha outro sentido. E o jogo, independentemente de se gostar ou nao de jogar, choca e fascina ao mesmo tempo. Estou agora em Guangzhou (em portugues: Cantao) a escrever estas linhas, enquanto sou devorado por mosquitos. Amanha parto para Yangshuo. Nao conseguimos ver o jogo de Portugal, mas ja me informei do resultado. Parece que foi melhor assim.
1 comentário:
Caro João,
A sua mãe com muito orgulho enviou-me o endereço do seu blog.
Muitos parabéns antes de mais pelo belíssimo português e pela capacidade de análise.
Estive em Hong Kong e Macau em 1989 e pelos vistos apesar de tudo ter evoluido a sua análise está surpreendentemente de acordo com a que realizei na altura há quase 20 anos atrás.
Quanto a Macau, lamento dizer que já nessa altura ninguém falava nem português ou inglês. Naif como era quando desembarquei do ferry e perguntei ao polícia direcções para onde deveria ir, pensei que Portugal era tão bonzinho que empregada polícias surdos.Ah ah ah .
Abraço
Luis Avides
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