sexta-feira, 13 de junho de 2008

Hong Kong: um blind date

Findas as 10 horas de viagem, passadas entre sono profundo e a uma maratona de filmes no pequeno LCD que tinha à minha frente, chegámos a Hong Kong.

A primeira impressão inesperada foi a do clima. Tudo bem que não esperava frio mas, por alguma razão, não esperava que fosse tão tropical. Talvez por não achar que isso ligue bem com a fama de centro financeiro mundial, ou talvez por não ter ligado a situação geográfica ao que seria de esperar. É incrível como tendemos a olhar mais para o nosso lado do mapa-mundi, com o Atlântico bem no meio, sem nos apercebermos de como isso afecta a nossa noção geográfica do planeta. Seja por que razão for, meus caros, estamos a falar daquele bafo tropical que deixa tudo em que toca húmido. Quando se carrega uma mochila de tipo Interrail, com o jet lag em altas, há coisas melhorzinhas do que levar uma estalada de calor e vapor de água. Mas é uma questão de hábito.

Lá trocámos uns euros por Hong Kong dollars para pagar o autocarro até à cidade propriamente dita. Autocarro esse em que voltei a cair em sono profundo. Quando acordei tive o meu primeiro encontro com Hong Kong. Cores e letreiros. Publicidade e caracteres chineses. Olhos em bico e prédios altos. Gente, muita gente.
Ao sair do autocarro, a segunda impressão inesperada: ninguém fala inglês. Corrijo: (alguns) arranham qualquer coisa, especialmente se nos estão a tentar vender algo. Desde de "Copy Watch!" (relógios de contrafacção) a "Foot Massage!", estes senhores tentam vender mais ou menos qualquer coisa, nunca a qualquer preço, a tudo o que mexa, respire e não tenha os olhos em bico.
Chegados à Nathan Road, a rua do nosso hostel, a terceira realização inesperada: nenhum edifício parecia capaz de albergar aquele que é o "Best Rated Hostel in Hong Kong", pelo menos segundo a hostelworld.com. Demos com o edifício e confirmou-se. Não que o hostel em si fosse mau, o quarto era o mais que se pode pedir pelo preço que pagámos. Mas o edifício em si era um mundo. É um edíficio velho, cujos corredores abrem todos para um átrio interior. Vê-se de tudo: turistas, turbantes, lixo, internet cafés, carpintarias, posters de deuses (indus?) nas paredes...Não consigo descrever, talvez as fotos e a palavra oral o façam melhor do que a escrita, daqui a um mês.

Seguiu-se um jantar de gastronomia internacional (vulgo MacDonalds) e a procura por um spot para ver o jogo Portugal-Rep. Checa. Solução: sair de Hong Kong "continental" e seguir para a ilha de Hong Kong, onde encontrámos um pub com um projector bem grande. E por momentos foi como se estivessemos em casa. Vibrámos os quatro, com dois ou três chinocas que apenas queriam ver golos. Um inglês achou que não mereciamos uma victória tão sonante: suspeito que essa opinião está vagamente relacionada com a ausência da Inglaterra neste Euro. Mas isto sou eu a falar, claro...

A ilha de Hong Kong corresponde muito mais ao perfil de "investment banker" que eu tinha da cidade. Desde os arranha-céus, às suas lojas e gentes. Mas continua a ser uma surpresa: Hong Kong é uma cidade de contrastes. Vive entre o edifício a ruir e o arranha-céus, que muitas vezes se encontram no mesmo campo de visão. Vive do velhinho chinês que vende tudo o que tem numa barraca em que de tudo exibe: cartazes de propaganda do regime de Mao, títulos de dívida pública que remotam à China imperial, os famosos livros vermelhos, entre muito mais tralha que apetece vasculhar, às vezes sem se saber porquê. Talvez seja o simples facto de não sabermos o que mais podemos encontrar. Mas Hong Kong vive também dos "Seven Eleven", dos Macs, das lojas de electrónica com vendedores à porta que nos querem obrigar a comprar um ipod. De mais uma sucursal do banco HSCB. De luzes que iluminam a noite e anunciam tudo, desde o "Hong Kong Haemorroid Centre" ao champagne "Moet & Chandon". E no meio de tudo isso encontramos o ocasional jardim chinês, tão típico quanto possam a imaginar, em que os os avós passeiam os netos ou jogam uma cartada com os amigos.


O segundo dia foi passado pelos highlights. Victoria's peak é o sítio de onde se tiram as fotografias sobre a cidade, aquelas dos postais que todos nós vimos milhentas vezes. Descer Victoria´s peak a pé é que não aparece no postal... Entre os highlights ainda se contam o arranha-céus mais importantes e, em especial, o do Bank of China. Um pormenor: os arranha-céus que ainda se encontram em contrução (são tantos...) têm andaimes até ao topo...mas feitos de bambu!
Nessa noite visitámos ainda o Temple Street Night Market. Encontra-se tudo que seja susceptível de ser contrafeito: relógios, t-shirts, malas, zippos, óculos de sol, DVDs, telemóveis, ipods, jogos... Algumas imitações não enganam ninguém, mas outras podem iludir qualquer um.
Foi nessa noite que se deu a primeira aventura gastronómica: uns noods sem surpresas, mas num tasco que faria as delícias à nossa tão estimada ASAE. Em todo o caso, o Lonely Planet recomenda: comam onde haja muita gente, é sinal de que ninguém se tem dado mal...

Gostava de vos descrever melhor Hong Kong, mas pura e simplesmente não consigo. Fá-lo-ei daqui a uns tempos, presencialmente. Numa palavra: Hong Kong foi um blind date. As expectativas estavam formadas. Poucas se cumpriram. Mas nem por isso deixou de ser espectacular.

Estou agora em Macau. Escrever-vos-ei sobre a ex-colónia depois de completar a visita.

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