domingo, 22 de junho de 2008

Yangshuo: opressao no paraiso

Visitada a cidade de Guanghzou, esperavamos o autocarro que nos levaria a Yangshuo, cada um preparando-se a sua maneira para uma viagem pela noite dentro. Somos alvo de mil olhares indiscretos, enquanto comemos bolachas no chao da estacao, esperando pela hora marcada.

A viagem acabou por nao permitir um sono continuo e descansado. Ou pelo menos que a maioria assim dormisse, sendo que eu sou a minoria, como adivinharao alguns. Lembrancas de viagens a outros paises ditos de terceiro mundo haviam-me preparado para uma conducao "com emocao". Nao ha regras, senao a da buzina e a do "chega para la senao estampo-me". As estradas estao na pior das condicoes, chegando a obrigar o autocarro a fazer largos trocos a uns 10 kms/h. Nao estou a exagerar: por vezes parecia a habitual marcha lenta da chegada a um parque de estacionamento de uma praia da Caparica, em que procuro poupar a suspensao do carro. Desta vez estava numa estrada nacional chinesa, escassos dias depois da regiao de Yangshuo ter estado totalmente alagada. Mas o mal estava feito, portanto mais valia dormir.

Quando abri os olhos estava em Yangshuo. Nao poderia ter imaginado melhor despertar. As fotografias falam por elas e estao no sitio do costume (inclui mais umas recentemente, vejam o link no cimo da pagina). Yangshuo é uma vila de agricultores que descobriu ha alguns anos as maravilhas do turismo. A sensacao `a chegada foi de paz, especialmente depois da passagem por Guangzhou. Nao ha preocupacoes neste pedaco de paraiso, em que o tempo é passado descendo rios em jangadas de bambu ou explorando aldeias vizinhas de bicicleta, em que somos sempre cumprimentados com um sorridente "nihao!" (ola!). Entre os arrozais e as plantacoes de tabaco, vamos pedalando para encontrar a proxima paisagem espectacular, sempre dominada pelos pinaculos rochosos que podem ver nas fotos, que se perdem da vista entre o nevoeiro constante.

Mas qualquer descricao que eu vos possa fazer deste sitio sera redutora, pelo que me vou abster de a fazer. Prefiro falar-vos da Amy, a nossa guia.

A Amy, cujo nome verdadeiro é Zhu Lian Feng, tem 47 anos, vividos na sua totalidade em Yangshuo e arredores. Conhecemo-la em pessoa na manha da nossa chegada a Yangshuo, conduzindo uma moto electrica como tantos outros chineses. A primeira impressao foi logo positiva: a Amy nao é daqueles guias que tem tudo negociado de antemao, daqueles que apenas querem dar ao viajante a ilusao de que escolhe o que faz da sua viagem. Nao! A Amy queria saber onde pretendiamos dormir ou, pelo menos, que tipo de hostel pretendiamos. Acabou por nos indicar um onde pagamos uns 5 euros por noite. Da minha varanda acabei por tirar fotografias, algumas das quais estao incluidas nas que coloquei na net. Devem calcular, portanto, que o quarto valeu cada centimo gasto.

Mas comecamos a conhecer a Amy durante o pequeno almoco. Apesar de macarronico, o seu ingles era totalmente entendivel. O curioso é que ninguem a ensinou a falar: a Amy aprendeu o ingles que sabe durante os ultimos nove anos, numa base totalmente auto-didactica. Ocasionalmente recorre a algo que se parece com uma agenda electronica, daquelas que sao distribuidas gratuitamente por revistas pretenciosas e que acabam, quase sempre, guardadas numa gaveta até a sua primeira e ultima pilha se gastar. Para a Amy aquele objecto é essencial. É ele que lhe permite conhecer uma nova palavra, feita a traducao chines-ingles dos caracteres que escreve no teclado de borracha, descobrindo em seguida a sua fonetica quando o viajante que guia a le em voz alta.

Passada a conversa de circunstancia, que passou pelo relato do efeito das cheias na pequena vila de Yangshuo, a Amy comeca a falar de si. Segundo ela, nao ha pessoa mais sortuda na vila! Tem oportunidade de fazer amigos de todo o mundo sem de la sair. Quando lhe mostrei as fotos das nossas paragens anteriores ficou maravilhada, dado que nunca foi sequer a Cantao. Ao que ela sabe, de la so vem pessoas mas ("Bad people!"). E isso basta-lhe.

Estou a exagerar. A Amy foi uma vez a Pequim, a convite de uma amiga canadiana. Conheceu essa senhora da mesma forma que nos conheceu a nos. Falou-nos da sua visita a capital num tom de emocao, de agradecimento, de contentamento com a vida, que transparece tudo isso apesar do seu ingles nao lhe permitir por tudo em palavras. Senti que os seus dias em Pequim foram dos mais felizes que teve. Acabaria por perceber, mais tarde, que os seus dias mais infelizes foram causados pela mesma cidade. Repito: eu acabaria por perceber. A Amy nao.

Zhu Lian Feng é a mais velha de 5 irmaos. O mais novo morreu de fome, ainda muito novo. Fome essa que afectou toda a China pois o regime de Mao decidiu, por essa altura, que a actividade economica primordial deveria ser a metalurgia. Nao havendo agricultura, nao houve comida para todos, entre os quais o irmao da Amy. Mas para ela, a historia acaba na segunda frase deste paragrafo, na parte da fome.

Porem, para grande espanto meu, a Amy chegou a confessar que Mao tinha cometido alguns erros enquanto governante. Confessar é a palavra certa: isto foi dito baixinho, em ingles, entre pedidos de segredo absoluto. Mas o meu espanto logo se desfez: segundo a Amy, os erros nao foram bem do Mao, mas antes da sua mulher. O lendario secretario do partido comunista estava muito velho e a mulher comecou a dar ordens por ele. Dai vieram os problemas todos da sua governacao.

Mas Pequim voltou a dificultar a vida de Zhu Lian Feng. Mae de um filho, nao poderia ter um segundo, estando sujeita a uma multa de 600 euros se tal acontecesse. Isto ha 10 anos atras, pois no presente esse valor é de 2000 euros, uma pequena fortuna neste lado do globo. Muito pesado dirao voces, mas quando as autoridades souberam da segunda gravidez da Amy (nao me perguntem como), a historia foi outra. Nao tendo dinheiro para pagar a multa, a Amy acabou por ver a sua casa invadida pelos homens do regime, que a procuravam para a levar ao hospital e ai se abortasse a gravidez. Felizmente conseguiu esconder-se a tempo, mas o marido acabou preso. Teve o pai de ir busca-lo, depois de pedir dinheiro a toda a gente que conhecia para que pudesse pagar a multa.

Para a Amy a vida continuou. E continua. Na sua passividade oblivia, infantil ate, a Amy segue cantando enquanto se passeia connosco pelos arrozais. Pensa-se a mais sortuda da sua vila, como se calhar se pensam outros entre os 1,3 bilioes de chineses. E Tien Amen sera sempre (apenas) uma praca monumental em Pequim, que povoara o seu imaginario sonhador, quando relembra a sua visita.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Guangzhou: Welcome to China!

Boas noticias! Apesar de todas as tentativas do regime comunista chines, ainda consigo blogar. Porem, nao consigo ver o meu blog, apenas edita-lo. As fotos sao tambem impossiveis de colocar em conjunto com o texto. Mas os capitalistas respondem com (mais) uma funcionalidade do Google. Assim sendo, estao disponiveis em http://picasaweb.google.com/jspatrone. Nao estao todas, mas tambem é so para dar um cheirinho.

Venho porem escrever-vos sobre Guangzhou, que os portugueses conhecemos por Cantao.

`A saida de Macau, as ultimas palavras que Portugal nos tem a dizer, incrustadas no antigo posto fronteirico, sao: "Honrai a vossa Patria!". Inspirador, no minimo, dado que estavamos prestes a entrar na chamada Mainland China. Em bom portugues: deixavamos para tras os territorios especiais nos quais, admito, me senti sempre protegido, por todas as razoes que devem imaginar. A cada passo, menos ingles se fala. Nao estou a dizer isto para estilizar o texto: a sensacao é mesmo esta.

Fui o primeiro a passar as tipicas barraquinhas de verificacao dos passaportes, em que nunca tive nenhum problema, ate porque a fotografia coincide sempre com a cara. Ate esse dia. Melhor dizendo, a cara e a foto coincidiram e eu passei sem problemas, mas quando me voltei vi o Pedro a gesticular e a fazer uso de palavras soltas em ingles. No meio de trilioes de chineses que, por minuto, passam por aquele posto fronteirico (o fluxo humano impressiona mesmo), foram os quatro portugas que levantaram suspeitas. Viajar por um periodo de um mes pela China, de mala `as costas, assim sem reservas de hotel nem nada? Para eles, simplesmente, nao faz sentido. Resolveram, portanto, revistar as nossas mochilas. Receava que nos confiscassem os guias do lonely planet. Como comentei com alguns, o regime nao aprova estes guias porque nao contemplam Taiwan como territorio chines. Acabaram por nao o fazer, mesmo apos uma minuciosa revista das mochilas da Joana e do Bernardo (chegada a minha vez e a do Pedro, perceberam que era mais do mesmo). Depois da revista, o unico chines do posto fronteirico que arranhava ingles diz-nos: Welcome to China!

Chegados a Guangzhou, resolvemos sair antes da paragem final do autocarro. Isto porque uma das paragens, ja na cidade, era exactamente em frente a uma universidade. Calculamos que ai seria mais provavel encontrar alguem que falasse ingles. Foi o melhor que pudemos fazer. Os jovens chineses, desde as criancas de 5 anos ate aos jovens universitarios, olham-nos com a maior curiosidade. Eles querem mesmo falar connosco. Saber de onde somos, para onde vamos, enquanto treinam o ingles entre pedidos de desculpa por nao o falarem tao bem quanto gostariam. "Why come to China?"-perguntam eles tantas vezes. `As vezes questiono-me se eles tem nocao da importancia da China no mundo de hoje. So em Yangshuo viria a perceber a influencia do regime que oprime de forma silenciosa, estupidificando o povo que governa.

La nos ajudaram e demos com o melhor hostel em que dormi na minha vida (tinhamos camas a mais, em suites!).
Os problemas surgiram no dia seguinte. Queriamos tratar de marcar o autocarro para Yangshuo e fazer um telefonema para a guia que nos foi indicada pela Mariana, ainda em Macau. Mas as coisas simples demoram horas a fazer quando as pessoas nao conseguem comunicar. Ninguem nos vendeu um cartao de telefone porque simplesmente nao nos entendem. No bilheteiras do comboio, os empregados optam por fingir que nao estamos ali`a frente deles, preferindo o atender o cliente seguinte. Guangzhou, nao é uma cidade vocacionada para o turismo. Assim sendo, os seus habitantes nao falam ingles, nem tentam quando interpelados. Torna-se frustrante e cansativo, mas ja aprendemos o truque: agarrar um chines da nossa idade. Esses ate vem atras de nos, ou para nos darem uma indicacao adicional, ou um pormenor util que se esqueceram de referir, chegando as vezes a guiar-nos ate aos sitios a que pretendemos chegar. Muitos fazem-no pela curiosidade de conhecer um ocidental. Outros porque querem treinar o ingles. Seja pelo que for, os jovens chineses anseiam por contacto com o ocidente, o que nos vai simplificando a vida embora nao com a frequencia que gostariamos.

Quanto `a cidade em si, Guangzhou debate-se entre a China antiga e a modernidade. Encontramos bairros tipicamente chineses, que se ocupam dos oficios mais tradicionais, mesmo junto a gigantes de betao que procuram imitar os das metropoles ocidentais. Mesmo os pagodes, templos de culto budista, erguem-se entre a selva urbana. O ultimo andar do pagode mais impressionante tem vista para a maior exportacao chinesa: a poluicao. O smog choca, como poderao ver nas fotos.

Guangzhou nao marcou, pelo menos como cidade. As zonas tradicionais sao giras mas a cidade é, infelizmente, muito mais do que isso. A poluicao do ar é demasiado evidente, mas os chineses vivem bem com ela. Talvez um dia percebam o que estao a destruir, tanto em aspectos culturais como ambientais. Estou neste momento em Yangshuo, onde isso se tornou evidente. Apetece gritar: China, nao é por aqui! Mesmo gritando em chines, duvido que me percebessem, por todas as razoes que escreverei noutro dia.

domingo, 15 de junho de 2008

Macau: Camões goes to Vegas

1.desculpem os acentos: so consigo usar alguns, usando copy-paste...

2.tenho pena de nao incluir fotografias, mas este computador esta demasiado demorado. ja é tarde e amanha é para acordar cedo. assim que puder incluo, ate porque estao mesmo porreiras

Foi debaixo de chuva que nos despedimos de Hong Kong. Aquela chuva tropical que nos faz vestir o impermeavel, embora preferissemos o tronco nu, tal é o calor. Para chegar ao ferry que nos levaria a Macau fizemos uso da nossa melhor mimica, assim como do no nosso pior ingles. A lingua de Shakespear é, por estas bandas, melhor entendida quando usada na base do monossilabo.

A bordo do ferry comeca a fusao: caracteres chineses que por baixo dizem "Cuidado com o degrau!". Preencher o formulario de entrada no territorio relevou-se tarefa ardua, pautada pelo ocasional grito de um passageiro da parte da frente do ferry, assustado pela combinacao de velocidade com mar picado (o ferry nao é nenhum cacilheiro, aquilo anda mesmo). Foi a primeira vez que me senti enjoado num barco. Mas, felizmente, a coisa correu pelo melhor.
Chegados a Macau, mais fusoes: as traducoes lusas dos misteriosos caracteres surgem em frases soltas, um pouco por todo o lado. Ate nas patacas, emitidas pelo Banco Nacinal Ultramarino. Mas a fusao fica-se pela palavra escrita, porque raramente é ouvido na rua e, quando o ouvimos, vem da boca de turistas. O ingles é ainda mais monossilabico.

Tratou a Mariana, que nos albergou em sua casa nos dias passados na ex-colonia, de falar com o taxista por telefone, de modo a que pudessemos chegar a sua casa (Obrigado por tudo Mariana!). Instalados nesse cantinho luso, fizemo-nos `a parte velha da cidade, onde tudo se torna surreal. Nao se ouve portugues, ate porque mesmo os turistas sao, na sua esmagadora maioria, chineses. No entanto, pedacos de Portugal vao surgindo. O edificio da Santa Casa. A Rua Dr. Mario Soares. A Livraria Portuguesa, anunciando coloquios com o tema "Quem foi Camoes?". A calcada portuguesa. Os pasteis de nata, vendidos sob slogans em caracteres chineses. Foi estranho. Durante estes dias em Macau senti que estaria em casa...nao fosse o facto de nao entender ninguem e de ninguem me entender. Macau usa Portugal como um homem usa uma gravata: aquilo nao serve para nada, esta la so para enfeitar. As marcas lusas parecem lutar enquanto se afogam numa cultura totalmente dispar. Fazem lembrar o ocasional aquele "Eu estive aqui!", que se ve tantas vezes escrito num parque, num monumento, onde quer que seja, por quem procura eternizar uma passagem breve e fugaz. Esquecem-se os autores de tal frase que basta muito pouco para apagar a marca que tentaram deixar. A Portugal, parece que bastou entregar Macau a quem de direito, para que fosse sendo apagado deste local que lhe é tao estranho.
Macau tem uma escala que eu nao imaginava. Recebe hoje mais visitantes por ano do que os EUA no seu todo. Na sua maioria sao chineses, sedentos de jogo ou de sexo profissional. Ultrapassou ja Las Vegas no que toca ao negocio da sorte. Ou sera o do azar? O hotel Lisboa teve de mandar substituir as suas janelas, de modo a que nao pudessem ser abertas, tal era o desespero dos (demais) azarados que procuravam melhor sorte num salto.
O jogo fascina por fora. Nas ruas tudo brilha, tudo pisca. Sempre em formas novas, sempre com um luxo piroso. Fomos ao Venetian, um casino que nao pisca, mas que é simplesmente monumental por fora. Por dentro nao o deixa de ser, mas o megalomano passa a ridiculo. Passo a explicar: este casino procura recriar, no seu interior, a cidade de Veneza. Bem sei que ha um em Las Vegas, mas este é cinco vezes maior. Recebe 50 000 visitantes-jogadores por dia, fora aqueles que vao apenas ver a fortuna ou a falencia alheia. Eu ja esperava as salas de jogo a perder de vista (mesmo a perder de vista!). Mas centros comerciais que se desenham entre canais, por onde chineses conduzem gondolas, enquanto cantam "Volare! Oh Oh!" para delicia do casal que transportam pelo meio das lojas...isso eu nao esperava! Depois temos Veneza de dia, temos Veneza de noite, temos tudo! Parecia uma Disney para gente grande, onde elas se perdem por joalharia da "Hello Kitty" e eles pelas pernas da menina que os convida para ir para o quarto.
Em Macau houve tambem lugar para o almoco mais aventureiro ate agora, ainda que com a recomendacao da Mariana, mas que deixou alguns com fome. Confesso que nao fui um deles, ando mesmo com um apetite alarve. Mas em Macau ha sempre um noodle por perto, de conteudo bem identificavel pelos olhos tugas.
Mas em termos de gastronomia, nada bateu o jantar do restaurante do Mr. Tsong, um macaense que arranhou algum portugues, pelo menos mais do que o ingles. O Mr. Tsong gosta muito de Cascais! Sempre de copo na mao, ensinou-nos muito do pouco chines que sabemos, ate que desatou a cantar em chines uma musica tipica de Macau. No fim houve a foto da praxe, que nao poderei incluir pois esta na maquina da Joana, que nao tem culpa nenhuma das minhas insonias (este calor nao me deixa dormir as minhas 12 horas de seguida) e que por isso nao vou acordar. Em todo o caso, jantamos grande mariscada, barata, numa praca "aportuguesada", com vista para o mar, numa das ilhas de Macau (a minha memoria atingiu o limite de nomes estranhos que consegue armazenar, pelos menos por hoje).
Macau é um sitio curioso para um portugues. A musica do Sting que diz "I'm an alien, I'm a legal alien!" ganha outro sentido. E o jogo, independentemente de se gostar ou nao de jogar, choca e fascina ao mesmo tempo. Estou agora em Guangzhou (em portugues: Cantao) a escrever estas linhas, enquanto sou devorado por mosquitos. Amanha parto para Yangshuo. Nao conseguimos ver o jogo de Portugal, mas ja me informei do resultado. Parece que foi melhor assim.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Hong Kong: um blind date

Findas as 10 horas de viagem, passadas entre sono profundo e a uma maratona de filmes no pequeno LCD que tinha à minha frente, chegámos a Hong Kong.

A primeira impressão inesperada foi a do clima. Tudo bem que não esperava frio mas, por alguma razão, não esperava que fosse tão tropical. Talvez por não achar que isso ligue bem com a fama de centro financeiro mundial, ou talvez por não ter ligado a situação geográfica ao que seria de esperar. É incrível como tendemos a olhar mais para o nosso lado do mapa-mundi, com o Atlântico bem no meio, sem nos apercebermos de como isso afecta a nossa noção geográfica do planeta. Seja por que razão for, meus caros, estamos a falar daquele bafo tropical que deixa tudo em que toca húmido. Quando se carrega uma mochila de tipo Interrail, com o jet lag em altas, há coisas melhorzinhas do que levar uma estalada de calor e vapor de água. Mas é uma questão de hábito.

Lá trocámos uns euros por Hong Kong dollars para pagar o autocarro até à cidade propriamente dita. Autocarro esse em que voltei a cair em sono profundo. Quando acordei tive o meu primeiro encontro com Hong Kong. Cores e letreiros. Publicidade e caracteres chineses. Olhos em bico e prédios altos. Gente, muita gente.
Ao sair do autocarro, a segunda impressão inesperada: ninguém fala inglês. Corrijo: (alguns) arranham qualquer coisa, especialmente se nos estão a tentar vender algo. Desde de "Copy Watch!" (relógios de contrafacção) a "Foot Massage!", estes senhores tentam vender mais ou menos qualquer coisa, nunca a qualquer preço, a tudo o que mexa, respire e não tenha os olhos em bico.
Chegados à Nathan Road, a rua do nosso hostel, a terceira realização inesperada: nenhum edifício parecia capaz de albergar aquele que é o "Best Rated Hostel in Hong Kong", pelo menos segundo a hostelworld.com. Demos com o edifício e confirmou-se. Não que o hostel em si fosse mau, o quarto era o mais que se pode pedir pelo preço que pagámos. Mas o edifício em si era um mundo. É um edíficio velho, cujos corredores abrem todos para um átrio interior. Vê-se de tudo: turistas, turbantes, lixo, internet cafés, carpintarias, posters de deuses (indus?) nas paredes...Não consigo descrever, talvez as fotos e a palavra oral o façam melhor do que a escrita, daqui a um mês.

Seguiu-se um jantar de gastronomia internacional (vulgo MacDonalds) e a procura por um spot para ver o jogo Portugal-Rep. Checa. Solução: sair de Hong Kong "continental" e seguir para a ilha de Hong Kong, onde encontrámos um pub com um projector bem grande. E por momentos foi como se estivessemos em casa. Vibrámos os quatro, com dois ou três chinocas que apenas queriam ver golos. Um inglês achou que não mereciamos uma victória tão sonante: suspeito que essa opinião está vagamente relacionada com a ausência da Inglaterra neste Euro. Mas isto sou eu a falar, claro...

A ilha de Hong Kong corresponde muito mais ao perfil de "investment banker" que eu tinha da cidade. Desde os arranha-céus, às suas lojas e gentes. Mas continua a ser uma surpresa: Hong Kong é uma cidade de contrastes. Vive entre o edifício a ruir e o arranha-céus, que muitas vezes se encontram no mesmo campo de visão. Vive do velhinho chinês que vende tudo o que tem numa barraca em que de tudo exibe: cartazes de propaganda do regime de Mao, títulos de dívida pública que remotam à China imperial, os famosos livros vermelhos, entre muito mais tralha que apetece vasculhar, às vezes sem se saber porquê. Talvez seja o simples facto de não sabermos o que mais podemos encontrar. Mas Hong Kong vive também dos "Seven Eleven", dos Macs, das lojas de electrónica com vendedores à porta que nos querem obrigar a comprar um ipod. De mais uma sucursal do banco HSCB. De luzes que iluminam a noite e anunciam tudo, desde o "Hong Kong Haemorroid Centre" ao champagne "Moet & Chandon". E no meio de tudo isso encontramos o ocasional jardim chinês, tão típico quanto possam a imaginar, em que os os avós passeiam os netos ou jogam uma cartada com os amigos.


O segundo dia foi passado pelos highlights. Victoria's peak é o sítio de onde se tiram as fotografias sobre a cidade, aquelas dos postais que todos nós vimos milhentas vezes. Descer Victoria´s peak a pé é que não aparece no postal... Entre os highlights ainda se contam o arranha-céus mais importantes e, em especial, o do Bank of China. Um pormenor: os arranha-céus que ainda se encontram em contrução (são tantos...) têm andaimes até ao topo...mas feitos de bambu!
Nessa noite visitámos ainda o Temple Street Night Market. Encontra-se tudo que seja susceptível de ser contrafeito: relógios, t-shirts, malas, zippos, óculos de sol, DVDs, telemóveis, ipods, jogos... Algumas imitações não enganam ninguém, mas outras podem iludir qualquer um.
Foi nessa noite que se deu a primeira aventura gastronómica: uns noods sem surpresas, mas num tasco que faria as delícias à nossa tão estimada ASAE. Em todo o caso, o Lonely Planet recomenda: comam onde haja muita gente, é sinal de que ninguém se tem dado mal...

Gostava de vos descrever melhor Hong Kong, mas pura e simplesmente não consigo. Fá-lo-ei daqui a uns tempos, presencialmente. Numa palavra: Hong Kong foi um blind date. As expectativas estavam formadas. Poucas se cumpriram. Mas nem por isso deixou de ser espectacular.

Estou agora em Macau. Escrever-vos-ei sobre a ex-colónia depois de completar a visita.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Prefácio de uma viagem por começar

Junto à saída do metropolitano no Sol, em Madrid, resolvi perguntar ao Pedro se na viagem que ele planeava, em conjunto com o Bernardo e a Joana, cabia mais um. E coube. Uma viagem a um país distante, que dificilmente se compreende ao longe e que, mesmo ao perto, não poderei nunca presumir compreender totalmente.
A China.

Um processo de falência, um levantamento popular no Tibete, um sismo e milhentas réplicas depois, tudo se mantém. A China mantém-se distante. Cada um de nós mantém a razão para lá ir. Seja ela qual for.

Qualquer tentativa de formar uma expectativa sobre o que vou encontrar é fugidia.

Estou dividido entre a ideia de avalanche, esmagadora e sem rosto, que só um regime autoritário, colectivo e central, com a pretensão de gerir 1,3 biliões de vidas, pode produzir; e a fragilidade que lhe está inerente ao ignorar o particular de cada um dos destinos que lidera.

Entre o deslumbramento perante a grandeza e o colosso (da Muralha, da barragem das Três Gargantas, de tanto mais), também ele típico de regimes autoritários; e o espectacular que certamente haverá nos pormenores que eles procuram fazer esquecer.

Entre o turismo pop e massificado no qual, muito provavelmente, me tentarão prender; e a possibilidade enorme que tenho de lhe fugir.

Tudo isto se junta às imagens dispersas que nos chegam desta cultura: do pimba que há no “Nunca Digas Banzai!”, ao saudoso Mr. Miyagi; do vulgar que há no porco doce e nas lojas chinesas, ao espiritual dos “Sete Anos no Tibete”. Tudo isto nos chega distorcido, pelos números e estatísticas que vemos, pela cosmética de Hollywood (o Mr. Miyagi era do Havaii), ou pela simples distância que certamente também distorce a nossa realidade aos olhos de quem vive no outro lado do mundo.


O percurso da viagem, ou pelo menos aquele que foi esboçado em Lisboa, é aquele que vos mostro. Começa em Hong Kong. Abstenho-me de o descrever, até porque o farei melhor in loco.

Dia 10 anda à roda…